segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Memória em azul


"Crónicas da época desportiva" é um livrinho publicado pela editora Livros Horizonte em 1989. Trata-se de uma colecção de crónicas de Homero Serpa, sobre temas desportivos, naturalmente, no Jornal A Bola (um diário de que fui outrora leitor, mas que se afastou de forma violenta e irreversível daquilo que foi num passado cada vez mais longínquo). O livro é muito aconselhado - como de resto são todos os textos, incluindo de ficção, escritos por Homero Serpa -, e de quando em quando não resisto a folheá-lo, passando os olhos por crónicas que não raras vezes se mantêm absolutamente actuais, porque os seus protagonistas se mantêm por aí, ou porque a evolução do desporto disputado fora dos recintos não aconteceu - no plano ético, sobretudo - com a dimensão exigida pelas circunstâncias da história.

Há dias voltei a pegar em "Crónicas da época desportiva" para reler um texto no qual, fazendo referência a Humberto Azevedo, que é hoje o associado n.º1 do Clube de Futebol "Os Belenenses", Homero Serpa mencionava Azevedo pai, jogador de uma das primeiras grandes equipas do Belenenses, ganhadora dentro e fora do campo, no tempo em que a notícia das vitórias fora chegavam à praia de Belém nas patas de um pombo-correio. Escrevia Homero Serpa que no seio das novas gerações não restaria memória de quem foi Azevedo (pai).

Permito-me discordar do grande cronista - e grande belenense - infelizmente já falecido, para afirmar que se coisa há que ainda sobrevive no seio das novas gerações de belenenses é a memória e a gratidão para com aqueles que fundaram e engrandeceram o Clube de Futebol "Os Belenenses". No Restelo permanece ainda uma memória em Azul que será um dos últimos grandes elementos da identidade belenense original. Creio aliás que a actual direcção do Clube se encontra apostada no seu fortalecimento, não obstante a forma miserável como a empresa que detém circunstancialmente a "SAD" envergonha com religiosa periodicidade o nome, a cultura e a ímpar postura que o Belenenses soube guardar dentro de si, apesar de décadas e décadas de lamentável descaracterização.

Muitos lamentam-no, bem sei, mas ao contrário do que cheguei a pensar num passado não muito longínquo, o Belenenses está aí, procurando reinventar-se sem deixar de ser o que sempre foi sendo: orgulhoso emblema das gentes da zona ribeirinha do ocidente Lisboeta, clube de bairro com prestígio nacional e internacional, ecléctico, valente perante as muitas tempestades que quase fizeram virar a nau. O Belenenses ainda é o Belenenses. Há muito clubes, de maior dimensão e com maior sucesso desportivo e financeiro que não podem afirmar o mesmo relativamente a si próprios. Perderam a memória, são emblemas derrotados no campo da sobrevivência da sua cultura original.