domingo, 30 de abril de 2017

Camisola azul e Cruz ao peito



É muito citada aquela frase de Karl Marx, o filósofo revolucionário alemão, segundo a qual "a História repete-se sempre, pelo menos duas vezes, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". O Belenenses será um caso de repetição ad aeternum de erros trágicos que colocaram o clube em situação de luta desesperada contra sucessivos cenários de colapso.

A leitura de "Camisola azul e Cruz ao peito", livrinho de Homero Serpa publicado em 1965, dedicado ao Belenenses através da figura do maior dos seus associados, Acácio Rosa, impressiona pela plena actualidade dos debates que descreve, das preocupações que aponta, dos erros que lamenta e da indiferença que observa. A leitura desta obra, hoje rara e por isso mesmo vendida no mercado de livros em segunda mão por preços pouco módicos, é na minha perspectiva fundamental para os belenenses de hoje e em particular para os seus dirigentes, directores e seccionistas.

Mil novecentos e sessenta e cinco foi há mais de meio século, e meio século pesou muito a um emblema que contrariou sempre, desde a primeira hora, os vaticínios sobre a sua morte. Seria no entanto errado supor-se que o Belenenses enorme de outros tempos não passou pelos mesmos equívocos, desilusões e desânimos que hoje o esvaziam de gente; tais circunstâncias ocorreram com impressionante frequência, provocando tensões internas não raras vezes violentas. Acontece todavia que o Belenenses de 2017 não tem, nem por sombras, a massa crítica do Clube de outros tempos.

Creio que essa erosão do pensamento próprio de muitos associados resulta, entre outros aspectos, de uma alteração do modo de funcionamento do clube, com uma progressiva autonomização das decisões dos órgãos dirigentes face ao comum dos associados, realidade que foi dramaticamente exponenciada (e aqui não apenas no Belenenses...) com a criação das SAD para a gestão das equipas profissionais de futebol.

Já nos anos 60 Acácio Rosa avisava para este processo de afastamento do Belenenses face aos belenenses, defendendo não apenas o fim do Conselho Geral (ainda hoje existente) como uma renovada valorização das Assembleias Gerais (o espaço de debate em que todos os sócios têm os mesmos direitos, um sócio-um voto), maior transparência e verdade na gestão dos assuntos do Clube. Ninguém nega que os tempos são outros; o que parece evidente é que persistir no mesmo erro - nos mesmos erros! - de nada servirá ao Clube.

À tragédia e à farsa a que aludia Marx a propósito da repetição da História importa opor uma refundação belenense baseada num maior respeito pelos sócios (envolvendo-os, dizendo-lhes sempre a verdade, afirmando sempre - todos os dias - que o Clube é antes de mais uma associação de que todos somos donos), no respeito inalienável pela história do Clube e na recuperação dos valores fundadores originais. O Belenenses não pode nem deve imitar os vícios e os truques dos seus rivais ricos, como fez no passado. Não somos cópia de ninguém.