terça-feira, 18 de abril de 2017

Miúdos belenenses


Quando a minha irmã Mariana tinha a idade da minha filha Catarina, há mais de 10 anos atrás, teve o desplante de estragar a piada a um artista de circo numa pequena vila balnear algarvia. O número consistia em perguntar aos miúdos presentes "qual é o teu clube?" e perante uma das três respostas repetidas e óbvias fazer uma piadola de circunstância, recolhendo depois as palmas de uns e os apupos de outros. A Mariana respondeu-lhe "sou do Belém" e, perante o silêncio dos presentes, o palhaço (literalmente palhaço) calou-se, incapaz de improvisar fora das três respostas programadas.

Ser belenense é de facto ser diferente e os miúdos belenenses, que infelizmente já não são muitos, mostram quase sempre o seu orgulho no clube. Cá em casa, por exemplo, somos três - eu com 39, ela com 11 e ele com 5 - e nenhum de nós questiona a grandeza azul (cada um à sua maneira e com as suas razões, naturalmente...). Para nós o Belém é o maior, ponto, como um dogma quase religioso que sobrevive a violentos confrontos com a realidade.

A Catarina não se abstém de o afirmar perante o gozo dos colegas-papagaios, que repetem um previsível discurso desprovido de alma, baseado na ideia de que o seu clube é que é o maior porque ganha muitas vezes. Curiosamente, o apelo fácil das vitórias repetidas nunca lhe falou ao coração. Para nós o Belém é o maior porque constitui um elo de ligação aos nossos antepassados, de sangue (trisavós, bisavós, avós, tios, pais...) e de bairro; é uma realidade desportiva na qual acreditamos não porque ganhe sempre mas porque luta sempre para ganhar, no respeito pelo conjunto dos valores com que nos identificamos.

O Belenenses é, de certa forma, uma extensão da vida de sacrifícios que vamos fazendo cá em casa, com dinheiro contado e sentido de prioridades, sempre tramados pelos esquemas de outros mais poderosos mas, mesmo assim, dispostos a lutar por aquilo em que acreditamos. A raiz da nossa identidade belenense não é resultadista mas bairrista, e essa é uma fonte de resiliência praticamente inesgotável. Não quer isto dizer que não queiramos o Belenenses campeão; queremos e lutaremos por isso, das formas que nos forem possíveis. Só que não somos dos resultados do Belém; somos do Belém independentemente dos resultados.