quarta-feira, 10 de maio de 2017

A Ajuda e a Cruz do seu Bairro



Semana horribilis, aquela que arrancou com a vitória do Belenenses em Alvalade por 3-1, matando um borrego com mais de 60 anos, e que percorreu insolente toda a história do velho Estádio José de Alvalade. A família azul ficou mais pobre com três mortes que, de rajada, rasgaram esta alma tão mal tratada: primeiro Jorge Marques, depois Álvaro Teixeira [ou simplesmente Teixeira, um dos bravos da final da Taça de Portugal de 1989] e agora Baptista-Bastos.

Não é possível hierarquizar tristezas e na verdade a morte de um belenenses será sempre, para lá da perda insubstituível que família e amigos chorarão inconsoláveis, uma tragédia para um Clube em que a falta de gente tem décadas. Os belenenses são todos insubstituíveis, em particular aqueles que na sua esfera de acção deram ao Clube o seu esforço e a sua dedicação, dentro e fora do campo.

A morte de Baptista-Bastos, filho da Ajuda como foi Homero Serpa e como é o meu avô materno, reaviva em mim o sentimento de pânico perante o desaparecimento acelerado e imparável dos homens e das mulheres que entre nós recordam o Belenenses de outros tempos. Um Belenenses desportivo mas também social, orgulho dos bairros ocidentais lisboetas, sua instituição identitária mais brilhante.

É por isso com um misto de emoção e profunda tristeza que leio as palavras que Baptista-Bastos dedicou ao Belenenses, e que a comunicação do Clube partilhou nas redes sociais juntamente com a manifestação de um pesar sentido: "ser do Belenenses (desculpem a presunção) é habitar um território de afectividades electivas: como pertencer a uma nação permanentemente movida pela esperança e percorrida pelo sopro do sonho". Onde anda a nação - física e imaterial - de que fala o grande cronista?

A Ajuda, esse "punho megalítico de Lisboa, o único lugar de Lisboa que não treme" [1], continua ali, rodeada de Belenenses por quase todos os lados habitados; o complexo do Restelo a ocidente, as Salésias a caminho do Tejo e agora também o futuro Parque do Rugby azul entre o Caramão e Monsanto. Tudo na sua geografia, física e mítica, convida a um enamoramento com o seu emblema local, o Belenenses. E no entanto há uma distância que se cava, costas incompreensivelmente voltadas, como o abdicar de um relacionamento que foi natural e desejado durante décadas pelas gentes daquela encosta e pela Cruz do seu Bairro.

Notas:
[1] "Capitão de Longo Curso", [Fernando Alves em "Sinais", TSF, 10.05.2017].