quinta-feira, 11 de maio de 2017

Quatro: o Belenenses foi quatro vezes campeão



Notícias recentes dão conta de um encontro realizado em Lisboa entre funcionários de Sporting CP e FC Porto. A reunião, a que o Correio da Manhã chamou "cimeira anti-Benfica", terá tido de acordo com um comunicado hoje divulgado por ambos os clubes vários objectivos, de entre os quais destaco - por ser de manifesto interesse para o Belenenses - o seguinte: "reconhecimento dos títulos do Campeonato de Portugal como sendo de campeões nacionais, como consta da documentação oficial da Federação Portuguesa de Futebol e suas plataformas".

Sobre o assunto aconselho desde logo, e por ser sobre a matéria totalmente esclarecedor, a leitura do texto da autoria de José Manuel Anacleto publicado no site oficial do Belenenses ["2 de Julho de 1933 – Belenenses Campeão de Portugal pela 3ª vez"].

O Belenenses venceu três campeonatos de Portugal e, já depois de introduzido o modelo competitivo semelhante àquele que é hoje disputado, venceu o Campeonato Nacional da 1ª Divisão. É por isso claro que o Belenenses foi por quatro vezes a mais forte equipa nacional de acordo com resultados obtidos no terreno de jogo, em provas oficias, reconhecidas quer pelos seus adversários, quer pelas entidades oficiais que tutelavam à data o desporto nacional.

A argumentação que tem vindo a ser utilizada por aqueles que recusam o reconhecimento dos títulos de campeão nacional obtidos por via do modelo competitivo anterior a 1934 é no fundamental política e engajada a interesses que nada têm que ver com a verdade desportiva. Porque se outra motivação houvesse não se diria muito e à boca cheia que "o Benfica detém duas Ligas dos Campeões", sendo certo e sabido que nos anos 60 do século XX o que existia era uma outra competição disputada em eliminatórias sucessivas e sem fase de grupos, envolvendo apenas equipas campeãs nacionais, e com um grau de exigência bem diferente daquele que hoje existe na "Champions" [1].

De resto, o reconhecimento dos campeonatos de Portugal como competições que à época apuraram de facto o Campeão de Portugal beneficia o futebol português e a sua imagem. A Liga portuguesa detém alguns tristes dados estatísticos e a escassez de clubes campeões é um deles: apenas cinco desde 1934 até 2017, sendo que dois dos cinco campeões apenas o foram por uma vez no "novo" modelo competitivo [sendo que este sofreu já alterações no contexto do modelo todos-contra-todos, como por exemplo no que se refere ao número de pontos atribuídos às vitórias].

Longe de se constituir como manobra de marketing, o reconhecimento dos títulos do Campeonato de Portugal seria antes a justa validação dos títulos de Campeão ganhos por emblemas históricos e de grande significado local e nacional, quase todos ainda vivos e disputando as provas herdeiras do Campeonato de Portugal: o Belenenses [vencedor em 1926/1927, 1928/1929 e 1932/1933], o Marítimo [vencedor em 1925/1926] e o Olhanense [1923/1924]. A lista de campeões de Portugal é na verdade composta por sete e não apenas cinco emblemas. O Belenenses detém na verdade quatro e não apenas um título nacional.

Não sei se o Sporting CP [ou o FC Porto] terá [terão] contactado o Clube de Futebol "Os Belenenses" sobre esta matéria. O que me parece claro é que compete ao Belenenses manifestar-se publicamente sobre esta questão, em momento que julgue oportuno [mas que exista!], sendo agora sabido que o tema foi tratado na reunião bilateral entre o Sporting e o Porto.



Notas:
[1] Nas épocas 1960/1961 e 1961/1962, quando venceu a Taça dos Clubes Campeões Europeus, o Benfica disputou quatro eliminatórias a duas mãos seguidas de final [jogo único], num total de nove jogos até poder levantar a Taça. Em 2016/2017 teria que ter disputado treze jogos [quinze, caso viesse da pré-eliminatória], incluindo seis em fase de grupos.