sábado, 18 de novembro de 2017

Mariano Amaro (parte 2)



A segunda parte da série de artigos "A vida de Mariano Amaro contada por ele e escrita por Pitta Castelejo", publicada na revista Stadium entre o final de 1948 e o início de 1949, dedica-se à infância do capitão azul, iniciado para o futebol nas ruas do seu bairro, e depois atleta do Sporting Clube da Adiça e o Grupo Desportivo Adicense.

O tom revela uma enorme admiração do autor por Amaro, que aparece como uma figura quase idealizada. Em todo o caso é de sublinhar que o episódio do pontapé na mão na senhora idosa que assistia às partidas da rapaziada do bairro vem humanizar a figura noutras passagens quase santificada do pequeno Mariano.

Parte II
(Revista Stadium n. 313, 01.12.1948)

Vão percorridos trinta e quatro anos. No pitoresco bairro de Alfama, num prédio de linhas simples e de aparência modesta, vivia um casal feliz.

Naquele recanto de Lisboa, as almas compreendem-se, cimentam-se amizades e, no passado como no presente, todos se conhecem, todos se estimam e as várias famílias formam como que uma família única e numerosa.

As alegrias e as tristezas de uns são partilhadas pelos outros e a vida honesta e límpida é conhecida tão me pormenor nos lares alheios como se não houvessem paredes a separar os diversos agregados familiares.

É frequente à noite, quando o calor aperta, vermos sentados à porta das casos, homens, mulheres e crianças, numa identidade completa de sentimentos, revelando o seu estado de alma, numa confiança que é sintoma daquela ingenuidade própria do excelente coração do povo português.

Como raramente aquelas ruas apertadas são invadidas pelos automóveis, as crianças brincam descuidadamente na via pública, vigiads pelo olhar atento das mães que costuram aos degraus das portas.

No dia 7 de Agosto desse ano de 1914, houve um acontecimento festivo, que veio tornar mais alacre e mais festivo o ambiente que se desfruta em determinado lar.

Um novo ente rosado e robusto, nascera para a vida. Houve festa rija, alegria a rodos!

O filho do casal, estupfacto, não se apercebia como de improviso, lhe surgiu um irmão.

O tempo na sua marcha ritmada foi passando e o pequeno Mariano cresceu e passou por aquelas múltiplas fases que tocam a todas as crianças. Chegou, anos depois, a demonstrar a mesma surpresa que sentira o seu irmão mais velho, quando um novo manito veio aumentar a prole.

Teve traquinices que ora caíam no agrado dos pais e eram motivo de contentamento, ora eram punidas com uns açoites bem puxados, a lembrar que os meninos não devem cometer más acções.

Os três irmãos davam-se às mil maravilhas e formavam um grupo encantador que a própria vizinhança admirava e acarinhava.

Cedo, porém, se começou a revelar neles, aquela intuição nata, que com a passagem dos anos mais se radica e confirma, para preferirem a bola, a todas as demais brincadeiras próprias das crianças.

Os automóveis de folha, os cavalos de papelão e os soldadinhos de chumbo, eram modesto incentivo para os seus entretenimentos.

Como se uma vontade única imperasse naqueles três cérebros, os olhos brilhavam de aprazimento, as faces atingiam-se de uma coloração diferente da habitual, quando uma bola de borracha, polícroma, lhe caía ao alcance das mãos.

Não se fartavam de a ver rolar pelo sobrado da casa, de a pontapear no empedrado da rua!

António, Mariano e Álvaro, cresceram.

A "mania" pela bola subsistiu e cada um deles, sabia aproveitar todos os pretextos para se dedicar à sua "paixão" favorita, naqueles improvisados campos de futebol, que são as ruas dos nossos bairros mesmo centrais.

Para dar pontapés tudo lhes servia: bocados diminutos de madeira, caixas de fosforos, pedras pequenas, latas de graxa e finalmente, bolas de trapo, aquelas bolas que, ainda no presente, são o grande aliciante da rapaziada.

Que de clamores não houve naquela casa, ao verificarem-se os apreciáveis estragos que acusavam as biqueiras das botas!

O pequeno Mariano, irrequieto, buliçoso, vivo e endemoinhado era um autentico "terramoto". Não tinha descanso. Numa ânsia crescente de estar em contacto com a bola, aproveitava todas as ocasiões para, com a "malta" do sítio, realizar desafios intermináveis, em que as horas corriam céleres e o seu fim só era atingido pela brusca intervenção dos pais ou... da polícia.

Então era a debandada. Cada um fugia para seu lado, qual bando de pardais assustados. Mas nem o temor dos agentes da ordem, nem a severidade do castigo imposto pela família, travavam a tendência cada vez mais arreigada no espírito de Mariano, que com os olhos vivos, voltava novamente, passado o "mau tempo", a entregar-se à sua brincadeira predilecta.

Na Escola 10, sita na Costa do Castelo, recebeu Amaro os primeiros ensinamentos. Aí começou a sua formação espiritual, cedo se revelando em estudante cumpridor e ávido de saber.

Enfim... futebol com bola própria

Aos treze anos, Mariano ingressou no Sporting Clube da Adiça, onde já alinhava o seu irmão António o melhor e mais eficiente executante da equipa. Alvaro, ainda "pequenito" era a "mascote". Jogou equipado, com uma bola de cautchú e em terreno próprio; como era diferente!...

Aos domingos era certo, não falhava um jogo. A rapaziada da Adiça estava sempre em "forma" para defrontar as outras equipas do bairro. Mariano era dos mais entusiastas.

A sua compleição franzina, parecia mais robusta quando jogava, quando tinha a bola ao seu alcance. Ocupava o lugar de interior, fazendo indistintamente qualquer dos lados.

Aí se começou a revelar um "garoto" cheio de habilidade, fazendo-se notar pela facilidade com que dominava a bola, pela subtileza que imprimia às jogadasm pela aparente facilidade com que "burlava" a defesa contrária.

Três anos volvidos, vestiu a equipa do Grupo Desportivo Adicense, clube inscrito em terceiras categorias no Campeonato Promocionário da A.F.L.

As excelente qualidades, aperfeiçoaram-se no contacto com os elementos de maior valia não tendo o seu irmão mais novo ingressado nesse clube. O mais velho havia já abandonado a bola devido a uma doença óssea. Todavia, para que não fosse o único da família, um seu tio, também fazia parte da equipa, embora deva elucidar-se que já era jogador quando Amaro entrou.

Durante a semana, os jogos na rua continuavam e serviam de treino. Claro que, eram muito diferentes, mas, mesmo assim, não esfriava o entusiasmo; ao invés, redobrava.

Garotices... sem punição

Durante esses animados e ruidosos encontros entre o grupo do páteo e o da Adiça (Mariano pertencia ao primeiro, no Campo da Adiça, que era nem mais nem menos que a Calçada de S.João da Praça, verificaram-se dois episódios que pela sua infantilidade não resistimos à tentação de revelar.

Costumava assistir a estas "jogatanas", uma velhota matreira, que, com o ar mais cândido, sentada no degrau da porta, seguia a evolução dos rapazes e acompanhava atentamente a tranjetória da bola de trapos, que apanhava quando passava ao seu alcance, fazendo desta forma, com que o jogo acabasse decisivamente.

Uma bola confeccionada por Amaro, com todo o carinho, seguira certo dia, o caminho de tantas outras. Aborrecido com esta atitude, o "garoto" traquina resolveu pregar uma partida à velha e se bem o pensou, melhor o fez.

Após prévia combinação com o chefe dos "miudos" adversários começou o jogo, com a inevitável presença da fiel espectadora, que aguardava pacientemente o momento de intervir.

A certa altura, Mariano apossou-se da "trapeira", seguiu "driblando" todos os adversários que lhe surgiram pela frente e caminhou em direcção à velhota- Esta julgando a ocasião propícia, estendeu o braço e deitou mão à bola... que não conseguiu apanhar porque um valente pontapé, deixou essa mão contundida e a sua dona torcendo-se com dores.

A velha começou a gritar e a "malta" rapidamente dispersou, para evitar a polícia.

Pelo sim pelo não Mariano foi de abalada até ao Seixal, terra dos seus pais, onde se conservou, "em estágio" durante 15 dias...

Daí para o futuro, já os desafios não tiveram a presença daquela "simpática adepta".

Num outro encontro, quando a animação atingira o auge, é dado o sinal de alarme: Polícia.

De facto fora estabelecido um cerco à "miudagem" atrevida que actuava nas "barbas" da autoridade.

Era inevitável a debandada e Mariano foi dos primeiros a dar o exemplo, caminhando rapidamente para o rez de chão da sua casa, seguido por dois companheiros que não podiam "furar" o cerco.

Entraram os três de rompante pela casa dentro, seguido por um polícia, nos seus calcanhares.

(continua)



[imagens: Revista Stadium]