terça-feira, 8 de maio de 2018

A luta segue dentro de momentos

A Bancada Azul é um lugar estranho. Na Bancada Azul, que outrora foi consagrada e popular, o tempo é de "guerra" fratricida. Uma "guerra" bem mais violenta e perigosa do que aquela que opõe o Clube de Futebol "Os Belenenses" à Codecity, e que apenas aproveita a quem capturou o futebol sénior masculino que foi, é e será do Clube.

A "guerra" na Bancada Azul é feita de antipatias pessoais muito mais do que de ideias. As refregas decorrem em torno de posições estáticas, de "trincheiras" ao pior estilo da guerra 1914-1918, e raramente resultam num ganho para o Clube e para aqueles que nelas participam.

O blogue que encerro (em definitivo) visava participar num debate diferente. Procurava reflectir sobre os assuntos retirando-lhes a carga negativa das antipatias pessoais erigidas ao longo dos anos. Procurava igualmente abranger os vários aspectos do dia-a-dia belenenses: a dimensão desportiva e a associativa, o futebol e as chamadas "modalidades", a história e a identidade que fomos perdendo.

O Belenenses que hoje sobrevive em cada um de nós está muito longe daquele que os meus bisavós viveram. E não me refiro apenas a resultados desportivos. No Belenenses de outrora cultivava-se o associativismo e a participação, exigia-se dignidade e independência face a outros poderes. O Belenenses histórico foi consagrado e popular, bairrista e anti-sistema. Hoje não sei bem o que é.

Os Belenenses de 2018 continuam a achar que o problema que têm em mãos foi criado por dirigentes e que apenas não se resolve por falta de vontade ou de competência de dirigentes. Parecem desconhecer que o conflito que temos em mãos não é entre a Direcção A ou B e a SAD, mas entre o Clube e a SAD, ou entre os belenenses e a empresa que capturou o futebol profissional belenenses.

Eu acredito no associativismo popular e sei que nesse contexto a palavra chave é co-responsabilidade. Um amigo distante mas que muito prezo, belenense como há poucos, costuma afirmar que o problema do Belenenses são os belenenses. E eu, que discordei sempre (caramba, que outros clubes sobreviveriam ao que andamos a passar há meio-século e em particular na última década?), vou-me rendendo às prosaicas evidências do quotidiano azul. Sobretudo porque os belenenses de hoje parecem pouco disponíveis para ser co-responsáveis nas decisões históricas que o contexto lhes exige. Faltam-nos tomates, como diria o Lú.

O momento não é de desistência, é de luta. E eu cá estarei para defender o que penso ser o melhor para o Belenenses associativo contra um Belenenses-empresa que vai na cabeça de muitos dos poucos associados azuis. Mas sem as ilusões que primeiro alimentei e que depois fui perdendo ao longo do tempo. O problema do Belenenses tem sido a morte do belenensismo que nos foi legado pelas gerações que viveram um Belenenses verdadeiramente grande (porque democrático, participado, ligado à comunidade) e não vejo com toda a franqueza vontade para o reabilitar nos seus traços gerais. Quem quiser apontar o dedo aos dirigentes que o faça, é livre. Mas erra o alvo. 

No Belenenses como noutros emblemas históricos sem a sorte dos protegidos, a dignidade associativa é relativizada face a outras formas de vivência clubística. Todavia, concedo que muito provavelmente sou eu quem está errado na sua forma de querer um Belenenses renascido e grande, com uma grandeza reconhecida com base em parâmetros e critérios que não são os escolhidos pelos nossos rivais históricos, e que apenas a eles servem.

A luta segue dentro de momentos, por outros meios. Este deixou de servir os interesses do Clube de Futebol "Os Belenenses".